Tatuagem é pecado?

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Tatuagem é um tema que costuma ser bastante polêmico. Antes de tratar dele, quero deixar claro que não tenho qualquer motivação pessoal. Não tenho tatuagem alguma, não gosto de tatuagens, não deixaria um filho se tatuar enquanto morasse comigo, etc.

Porém, é preciso separar as coisas. Existe uma diferença entre eu não gostar de alguma coisa e essa coisa ser pecado. Eu não sairia por aí usando cocar de índio, mas nem por isso posso dizer que isso é pecado. Então, é importante se ater àquilo que a Bíblia realmente diz sobre o tema.

O mandamento que geralmente é entendido como proibição contra tatuagem aparece em três lugares na Bíblia. Segue a lista abaixo:

“Pelos mortos não dareis golpes na vossa carne; nem fareis marca alguma sobre vós. Eu sou o ETERNO.” (Levítico 19:28)

“Depois disse o ETERNO a Moisés: Fala aos sacerdotes, filhos de Arão, e dize-lhes: O sacerdote não se contaminará por causa de um morto entre o seu povo… Não farão calva na sua cabeça, e não raparão as extremidades da sua barba, nem darão golpes na sua carne.” (Levítico 21:1,5)

“Filhos sois do ETERNO vosso Senhor; não vos dareis golpes, nem fareis calva entre vossos olhos por causa de algum morto.” (Deuteronômio 14:1)

É bastante nítido que a proibição se refere a rituais associados com os mortos. Não há uma proibição sobre o ato de se tatuar. Até porque, se “fazer marca” no corpo fosse biblicamente proibido, não seria possível justificar que a Bíblia permita brincos.

E os brincos e até piercings no nariz são mencionados em vários lugares das Escrituras, e não há nenhuma crítica. Exemplos: Ex. 32:2-3; Ex. 35:22; Ct 1:10-11. Pelo contrário, na Bíblia são sinônimos de beleza e cuidado, como visto, por exemplo, em Is. 3:18-24.

O Senhor não dá mandamentos tolos. Não existe “porque sim” na Bíblia. Tudo tem uma razão, e quando entendemos o contexto do Oriente Médio antigo, fica fácil de entender a proibição.

A Dra. Gemma Angel, historiadora da UCL de Londres assim escreve sobre a prática:

“Figuras de ídolos datando do Reino Médio [do Egito – 2025 a 1700 a.e.c. eram] tradicionalmente conhecidas como ‘Noivas dos Mortos’, frequentemente exibindo uma série de tatuagens em padrões geométricos que forma faixas horizontais no abdômen inferior…

Esses ídolos podem ser interpretados como ‘garantidores das habilidades procriadoras
do morto, em alusão àqueles da deusa Hathor’, que representa ao mesmo tempo fertilidade, concepção e amor, e que dava boas vindas aos mortos na próxima vida. Figuras de ídolos são frequentemente encontrados em tumbas, enterrados com os mortos para assegurar a ressurreição.” (Tattooing in Ancient Egypt Part 2: The Mummy of Amunet)

Em outras palavras: Povos politeístas adotavam incisões, marcas e tatuagens por superstição. Acreditavam que as tatuagens os uniam aos mortos, os consagravam aos deuses, e que tatuar-se no mesmo padrão das tatuagens de uma dada divindade poderia resultar e bênçãos ou até mesmo cura.

Nós podemos ver um resquício dessa prática na passagem em que o profeta Elias desafiou os profetas de Baal. Como Baal não respondia, a Bíblia diz o seguinte:

“E eles clamavam em altas vozes, e se retalhavam com facas e com lancetas, conforme ao seu costume, até derramarem sangue sobre si.” (1 Reis 18:28)

Como se pode perceber, a Bíblia se coloca contra um costume de necromancia e idolatria, e não contra qualquer tipo de marca no corpo para fins de adorno.

É tentador procurar justificar nossos valores pessoais na Bíblia, mas isso é perigosíssimo, e só leva a uma religiosidade vã, vazia, legalista e distante do Criador.

Sejamos francos: A grande maioria das pessoas que se tatua hoje em dia não o faz como um ato de idolatria ou superstição, mas sim para fins estéticos. E isso não tem absolutamente nada a ver com aquilo que a Bíblia proibiu.

Se você é como eu e não gosta de tatuagens, não há problema nenhum. Desde que não tentemos fazer a Bíblia justificar um gosto cultural. Vale lembrar que em várias culturas de vários povos as tatuagens significam inúmeras coisas diferentes.

O objetivo da Instrução, ou Lei, dada pelo Senhor aos israelitas é muito claro: Não era estética, mas sim afastar o povo da idolatria.

Por fim, encerro relembrando de um versículo de grande importância. Você se lembra do que o Criador disse quando o profeta Samuel foi à casa de Jessé para ungir o novo rei de Israel? O texto diz:

“Porém o ETERNO disse a Samuel: Não atentes para a sua aparência, nem para a grandeza da sua estatura, porque o tenho rejeitado; porque o ETERNO não vê como vê o homem, pois o homem vê o que está diante dos olhos, porém o ETERNO olha para o coração.” (1 Samuel 16:7)

Em outras palavras, não é a tatuagem, ou qualquer outro aspecto exterior da aparência de alguém, que define a pessoa como sendo justa, íntegra, reta e bondosa, mas sim suas atitudes de vida.

Colocando o dedo na ferida: Muitas das pessoas que se preocupam demais com a aparência frequentemente se revelam pessoas bem ruins, porque se esforçam demais quanto ao seu exterior, e assim acabam não dando muita atenção ao essencial, que é o interior.