Religiosidade não é Santidade

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“Totalmente destruireis todos os lugares, onde as nações que possuireis serviram os seus deuses, sobre as altas montanhas, e sobre os outeiros, e debaixo de toda a árvore frondosa. E derrubareis os seus altares, e quebrareis as suas estátuas, e os seus bosques queimareis a fogo, e destruireis as imagens esculpidas dos seus deuses, e apagareis o seu nome daquele lugar. Assim não fareis ao ETERNO vosso Senhor; Mas o lugar que o ETERNO vosso Senhor escolher de todas as vossas tribos, para ali pôr o seu nome, buscareis, para sua habitação, e ali vireis.” (Deuteronômio 12:2-5)

Uma leitura minimamente razoável do texto acima mostra que o povo de Israel deveria derrubar os altares e postes ídolos, bem como imagens de deuses. E que não deveriam usar de tais práticas para com o Criador.

Isto é, não deveriam erguer altares, fazer estátuas ou postes ídolos. A leitura é bastante clara.

Todavia, por um zelo que vai muito além da ordem em si, as lideranças judaicas da antiguidade adotaram a leitura de que eles não deveriam “apagar o Nome do Eterno” da terra, como fariam aos deuses. É uma leitura exegeticamente equivocada e fora de contexto.

Mas, não apagar o Nome do Eterno da terra parece ser algo bastante razoável mesmo assim. Contudo, ainda assim isso não foi suficiente. Resolveram tornar isso uma leitura literal.

Em outras palavras, proibiram que o Nome do Eterno, ao ser escrito, fosse apagado, dizendo:

“Quem quer que destrua os santos e puros nomes pelos quais o Sagrado, bendito seja Ele, é chamado é passível de açoites, segundo a Escritura.” (Sefer haMadá` – Hilkhot Yessodê haTorá 6:1a)

Os nomes são os seguintes, segundo a própria lei judaica: YHWH (bem como a forma reduzida Yah), EL, ELOAH, ELOHIM, ELOHAY, SHADAY e SEVA’OT – que realmente são termos bíblicos usados para se referir ao Senhor.

Essa proibição já é extra-bíblica, equivocadamente literal e fora de contexto. Mas, a coisa não ficou apenas nisso.

A proibição era apenas de apagar. Para evitar problemas, porém, muitos passaram a imprimir livros de reza com um hífen separando os Nomes Sagrados. Por exemplo, י–הוח ao invés de יהוה, temendo que pudessem ser descartados de forma inadequada.

Não tardou para que essa regra passasse a ser adotada para mídia eletrônica, mesmo não sendo permanente. E com muitos inspetores ignorantes prontos a te criticar se você fizesse isso. Porque criticar a “falta de zelo do outro” faz as pessoas se sentirem mais religiosas.

Além disso, a proibição originalmente era apenas para o texto hebraico. Mas, não tardou em surgir gente que passasse a escrever “Y-HWH” ou “EL-HIM”.

Mas, insatisfeitos em ficar apenas nisso, outros passaram a adotar coisas como H-Shem ao invés de HaShem, termo que significa “O Nome” e criado por ultraortodoxos pra evitar dizer Nomes Sagrados em contexto profano. Ou seja, o termo “HaShem” nada teria de bíblico ou de sagrado, pois já era, em si um termo substituto.

Ainda assim, houve quem passasse a usar H”, uma abreviação bizarra de “HaShem”. Mas, ainda havia insatisfação.

Não tardou para que coisas como “D-us” ou “S-nhor” surgissem, transpondo a regra rabínica para possíveis traduções do termo sagrado.

Daqui a pouco, haverá quem adote o espaço em branco, evitando qualquer letra. E ai daquele que colocar cinco espaços ao invés de quatro, ou fonte Arial 14 ao invés de 16.

E ninguém mais lembra do que dizia originalmente o texto de Deuteronômio. E nem ligam.

O que vemos aqui não é apenas abandonar o texto bíblico, mas também uma neurose de que nunca as coisas são suficientes. E disso padecem todos os seres humanos, não apenas no meio judaico.

O que dizer, por exemplo, dos grupos cristãos fundamentalistas ordenando vestimentas, ou abster-se de ver televisão, entre outros? E poderíamos facilmente ir adiante, falando de outros tantos.

Nunca estão satisfeitos com o que o Senhor ordenou. Arrogantemente, acham que tem que sempre haver algo mais. Não percebem que fazer isso é colocar-se no lugar do Criador, para definir o que é certo e o que é errado.

Será que essa sede de ser “mais santo” tem a ver com não olhar pra essência? É muito mais fácil não usar maquiagem, ou mudar a forma de escrever o termo que se refere a Deus, do que amar o seu vizinho chato. Ou ser misericordioso com a sua mãe idosa. Ou ainda não se vingar do colega de trabalho que puxou o seu tapete. E deixar de fazer fofoca, então? Tarefa quase impossível para muitos!

Aquele que foca no externo está fadado a deixar de olhar para dentro de si mesmo. E, ao fazer isso, mata qualquer tipo de transformação interior que o Senhor poderia nele realizar. É fácil dizer que o mundo ficou louco, ao invés de mudar sua personalidade ou forma de conduta.

Você nunca agradará o Criador fazendo o que der na telha e achando que isso é ter maior santidade.

Para agradar o Criador, é importante ter foco naquilo que verdadeiramente importa, para que não percamos o foco na transformação de nossas almas.

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