Como entender pureza e impureza cerimonial?

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“Assim separareis os filhos de Israel das suas imundícias, para que não morram nas suas imundícias, contaminando o meu tabernáculo, que está no meio deles.” (Levítico 11:31)

Muita gente não entende a questão da pureza e da impureza cerimonial na Bíblia. E, por isso, acaba caindo em dois extremos perigosos: Ou se tornam pessoas supersticiosas, achando que têm que limpar as mãos da contaminação espiritual, ou então acham que a Bíblia é primitiva e irracional.

Na realidade, não é nem uma coisa nem outra. A questão da pureza e impureza cerimonial é muito interessante e pode ser facilmente entendida. Mas, para isso é preciso conhecer um pouco da cultura dos povos do Oriente Médio antigo.

Esses povos normalmente acreditavam que os astros eram deuses que moravam literalmente nos céus, e que de tempos em tempos desciam aos montes para repousar, se alimentar, procriar, entre outros. Ou ainda recebiam sacrifícios queimados.

Eles percebiam que os astros influenciavam diretamente no clima, nas chuvas, na colheita, etc. Então, eles faziam de tudo para obter o favor desses deuses.

Hoje em dia, quando você chama um local de reunião de “Casa do Senhor”, você certamente usa o termo de uma maneira simbólica. Mas, não era assim com os povos do Oriente Médio. Eles construíam casas para que os deuses literalmente morassem nelas.

Eles entendiam que se essas casas não tivessem alimentos agradáveis, ou se não fossem de alguma forma do agrado dos deuses, eles poderiam dali se retirar, e irem residir noutro lugar, levando junto com eles as suas bênçãos, dos quais os povos entendiam depender.

Disso vem a pergunta: Quem gosta de morar numa casa suja? E quem gostar de estar no mesmo ambiente que pessoas imundas, ou cheirando mal?

Os sacerdotes eram literalmente vistos como mordomos, copeiros e cozinheiros dos deuses. Imagine se você se sentiria bem de saber que sua comida foi preparada por alguém que está cheio de sangue, sujeira da rua, ou com as mãos imundas!

Agora imagine que você fosse convidado a se hospedar ou visitar uma casa nessas condições. Você voltaria?

Os povos do Oriente Médio, portanto, tinham verdadeiro pânico de perder o favor dos deuses. E se você chegasse num templo de uma divindade estando sujo ou de alguma forma “contaminado”, e eles achassem que caíram das graças dos deuses, você seria morto.

Como o clima do Oriente Médio é extremamente delicado, com longos períodos de seca, tempestades de areia, furacões, tremores de terra, pragas de insetos (como os gafanhotos) entre outros, eles tinham muito medo de perder o favor dos deuses!

Imagine se você desse o azar de sujar um sacrifício de uma divindade, e logo depois houvesse uma epidemia de gripe na região. Você seria visto como alguém que trouxe maldição! E por isso também nas guerras era importante não trazer imundícia e ofender os deuses, levando à derrota militar!

Essa era a cultura em que eles estavam inseridos. E se já é difícil mudar a visão de mundo de uma pessoa no século 21, imagine então os semitas da antiguidade!

A Bíblia Hebraica já foi um texto extremamente revolucionário na época em que foi escrito. Mas, não dava para corrigir tudo de uma só vez. A Bíblia deixou pistas e indícios de como evoluir na vontade do Senhor, mas isso não seria da noite para o dia.

Sendo assim, havia uma expectativa do povo de que o Eterno lhes desse leis cerimoniais de pureza e impureza. Se a Bíblia não as tivesse estabelecido, e dado aos sacerdotes a incumbência de observá-las, imagine se cada um fizesse de sua própria cabeça, e o seu vizinho achasse que a culpa pela seca era de você ter entrado com roupas sujas de lama na Casa do Eterno!

Portanto, o que o Senhor fez? Deu regras claras, e colocou os sacerdotes como encarregados, para evitar o fanatismo e a barbárie! Ao invés de reclamar do limão, o Senhor fez uma limonada!

O que, portanto, a Bíblia fez foi extraordinário: Usou da cultura das leis de pureza e impureza cerimonial como metáforas para o nosso coração, nossos desejos, e nossas ações. Enfim, para falar sobre inocência, pecado, perdão, etc.!

Em nossa sociedade, é impensável imaginar que as pessoas irão sujas e fedidas para um lugar de oração e estudo. Geralmente, isso é interpretado da maneira que o Senhor sempre quis: Como um incentivo para que nossas ações sejam íntegras.

Mas, cabe também outra lição: Quando nos reunimos com pessoas, devemos fazer o melhor para não gerar constrangimentos desnecessários. Seja na forma de se vestir, de falar ou mesmo de se portar. Em casa, cada um faz o que quer e como quer. Em público, é preciso ter maior moderação.