Você NÃO deve ‘crer’ na existência do Eterno

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“Não existe… na lei mosaica um único mandamento ‘Tu crerás’ ou ‘não crerás…’ A fé não é ordenada… Onde a questão é a verdade eterna, nada é dito acerca de crer, mas de entender e conhecer.” (Moses Mendelssohn – Jerusalem oder über religiöse Macht und Judentum)

 

Você acredita no oxigênio? E na lei da aceleração? Você tem fé na existência da laranja? Tais perguntas soam absurdas para qualquer um que as lê. Porque essas coisas são fatos estabelecidos. E, como fatos que são, não dependem de qualquer crença.

Imagine você, caro leitor, estando num relacionamento com alguém e tendo que “acreditar” que a pessoa gosta de você, porque ela não dá nenhuma demonstração concreta disso. Ninguém quer isso. Todos queremos que aqueles que gostam de nós dêem provas disso com atitudes.

No entanto, num assunto tão sério quanto a vida espiritual, as religiões querem te fazer aceitar que você precisa acreditar em coisas, sem qualquer prova ou fundamento. Chamam isso de fé e ainda dizem que isso é uma virtude.

O que, além de tudo, é cruel. Pois você não controla aquilo em que acredita. Ou o quanto acredita em algo. É doentio julgar uma pessoa com base em algo que ela não tem qualquer controle e, pior, fazê-la se sentir mal ou insuficiente quando a convicção não alcança sua meta!

E a coisa ainda fica pior! Veja como o dicionário Michaelis define crença: “Convicção sobre a verdade de alguma afirmação ou sobre a realidade de algum ser, coisa ou fenômeno, especialmente quando não há provas conclusivas ou confirmação racional daquilo em que se acredita.”

Como bem colocou o grande filósofo Moses Mendelssohn, a Bíblia Hebraica em momento algum nos ordena a crer no Eterno! Pelo contrário, se a existência do Eterno é tão certa quanto os exemplos que dei acima, então a própria ideia de você ter que “crer” que Ele exista já é, em si, um desvio terrível!

Quando a Bíblia Hebraica fala sobre Enoque, é dito: “E andou Enoque com o Senhor; e não apareceu mais, porquanto o Senhor para si o tomou.” (Gênesis 5:24)

Enoque foi um grande exemplo de vida não porque ele creu que o Eterno existiu, ou porque acreditou em dogmas religiosos, mas sim porque ele estabeleceu com o Eterno um relacionamento!

Quando o Eterno se apresentou aos egípcios e aos israelitas nos milagres do Êxodo, disse a Moisés:

“E para que contes aos ouvidos de teus filhos, e dos filhos de teus filhos, as coisas que fiz no Egito, e os meus sinais, que tenho feito entre eles; para que saibais que Eu sou o ETERNO.” (Êxodo 10:2)

E quando deu os Dez Ditos ao povo de Israel, eles foram introduzidos da seguinte forma: “Eu sou o ETERNO teu Senhor, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão.” (Êxodo 20:2)

Antes de exigir qualquer coisa dos filhos de Israel, o Eterno se apresenta, lembrando a eles quem Ele é e o que fez por eles.

Quando o Eterno promete realizar uma série de sinais através dos profetas, em vários momentos diz coisas como: “Assim Eu me engrandecerei e me santificarei, e me darei a conhecer aos olhos de muitas nações; e saberão que Eu sou o ETERNO.” (Ezequiel 38:23)

Em suma, o Eterno sempre se pauta em fatos concretos, nunca em “crenças”. Razão pela qual, inclusive, se refere o tempo todo a sinais já dados ou que ainda serão trazidos.

Por essa razão, e tantos outros momentos nos quais o Eterno se REVELA na Bíblia Hebraica, outro Moisés, Maimônides, disse há quase mil anos:

“O primeiro mandamento é que somos ordenados a adquirir conhecimento acerca da natureza do Senhor, isto é, compreender que Ele é a Causa original e a Fonte da existência de tudo o que há.” (Livro dos Mandamentos – Mandamento Positivo 1)

De fato, esse é, inclusive, o propósito do Gênesis e de tantas outras passagens que nos convidam a refletir – intelectualmente e não através de uma fé cega – nas obras que o Eterno realizou.

Resumindo… o Eterno não quer que você creia nEle. O Eterno quer que você tenha experiências com Ele.

O Eterno deseja que, para você, o relacionamento com Ele seja tão sólido e certo como é o seu relacionamento com as pessoas à sua volta, com o seu trabalho, enfim, com o seu cotidiano.

Para que isso seja possível, é preciso investir numa mudança de mentalidade e de atitude para que possa caminhar com Ele.

E esse é um tema que tenho explorado bastante nos últimos artigos e pretendo continuar explorando nos próximos.

Sugiro começar com os artigos que falam sobre como saber quando o Eterno fala com você (clique aqui para ler o primeiro). São um ponto de partida, mas há muito a ser explorado ainda na questão de buscar conhecimento do Criador.

Porque conhecê-Lo não é uma tarefa de uma só etapa. É um propósito de vida.

Encerro com uma frase extraordinária de Carl Gustav Jung, quando perguntaram se ele acreditava em Deus. Ele respondeu: “Eu não acredito, eu sei.”

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