A Criação da Mulher – Parte 2: O Pecado

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Há quem pense, equivocadamente, que a narrativa da criação da mulher no Éden seja um tanto machista. Afinal, a mulher dá o fruto proibido ao homem, que come-o. Todavia, basta um olhar atento para perceber que o texto faz exatamente o contrário, e chega a ser, de certa forma, bastante feminista para os padrões da época.

É importante compreender que quando Gênesis foi escrito, já existia todo um folclore popular no Oriente Médio sobre a Criação. Não é à toa que o relato do Éden usa alegorias como a árvore da vida, a árvore do conhecimento do bem e do mal, a serpente, etc. para contar sobre a criação e a queda do homem. A Bíblia usa de uma linguagem que o povo já conhecia, para relatar a verdade e corrigir desvios.

Observe como a mulher era retratada na mitologia do Oriente Médio, muito antes da Bíblia: Segundo relata o prof. Dr. Marten Stol, de Línguas Semitas Clássicas e Assiriologia na Universidade de Leiden, os sumérios acreditavam que pecado do adultério, por exemplo, teria surgido por causa de mulheres humanas:

“A deusa Inana sentencia uma escrava à morte. Ela é chamada de Amanamtaga, um nome que significa ‘a mãe do pecado.’ Pode-se presumir que ela tinha uma relação com Dumuzi [Tamuz], o amante de Inana… Dumuzi tinha claramente começado a se divertir com essa ‘mãe do pecado’ quando Inana chegou para interromper os acontecimentos. A deusa a entregou ao público para ser linchada, algo que pode muito bem ter ocorrido no mundo real.” (Women in Ancient Near East – The Mother of Sin)

Se na mitologia suméria, uma mulher humana ganha o título de ‘Mãe do Pecado’, que título ganha a mulher na Bíblia? Observe que isso não é coincidência:

“E chamou Adão o nome de sua mulher Eva [hebr. Hawá]; porquanto era a mãe de todos os viventes.” (Gn. 3:20)

Além de ter sido chamada de idônea (Gn. 2:20), a mulher não é chamada de ‘Mãe do Pecado’, mas sim de ‘Mãe de todos os viventes’.

Em outras palavras, a Bíblia está dizendo aos israelitas: Suas mulheres não dão origem ao pecado, elas dão origem à própria vida!

Além disso, as mulheres eram geralmente retratadas nos mitos do antigo Oriente Médio como sedutoras ardilosas, até quando eram elogiadas!

No Épico de Gilgamesh, por exemplo, um personagem chamado Enkidu deixa de ser um homem animalesco para se tornar civilizado depois de ter sido seduzido por uma prostituta chamada Shamhat, uma prostituta-ritual que tinha por reputação manipular homens.

Compare isso com o que acontece na Bíblia:

“Então disse o homem: A mulher que me deste por companheira, ela me deu da árvore, e comi. E disse o ETERNO Senhor à mulher: Por que fizeste isto? E disse a mulher: A serpente me enganou, e eu comi.” (Gn. 3:12,13)

O homem começa o seu discurso exatamente da maneira que pensaria um semita da antiguidade: A culpa é toda da mulher! Mas, o texto não acaba aí.

A mulher – assim como o homem – tinha sido vítima do ardil da serpente, que simboliza no texto bíblico o próprio mal e sua inclinação. Ela, como o homem, havia errado. Mas ela fora seduzida pelo mal, tal como ele.

Ou seja, a Bíblia está dizendo aos israelitas: Suas mulheres não são más, nem sedutoras enganosas. Quando erram, é porque elas próprias também são enganadas e seduzidas pelos caminhos do mal, exatamente com vocês!

E ainda no relato, o Eterno pune todos os envolvidos, sem distinção. (Gn. 3:14-19) E, para não deixar nenhuma dúvida, não começa a pela mulher, mas sim pela própria serpente, a verdadeira fonte do mal na alegoria.

E, para fechar com chave de ouro: Observe que o homem chama à mulher de “Mãe de todos os viventes” imediatamente depois da queda. Isto é, aqui a Bíblia coloca sua expectativa de que os leitores compreendessem, como conclusão, que a mulher não era a ‘mãe do pecado’, conforme visto acima.

Como se pode perceber, o relato bíblico é extremamente favorável à mulher, visando corrigir desvios terríveis que existiam no imaginário popular dos israelitas.

É uma pena que as religiões, por se dedicarem mais ao dogma do que ao estudo inteligente, foram na via totalmente contrária da Bíblia, cobrindo a mulher da cabeça aos pés, inferiorizando-a e tratando-a como se ela fosse a fonte dos pecados (principalmente os de natureza sexual) e dos problemas da humanidade.

No próximo artigo, continuaremos a compreender como a mulher é retratada no relato da criação.