Falar em línguas é dom espiritual?

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“Quem confia em si mesmo é insensato, mas quem anda segundo a sabedoria não corre perigo.” (Provérbios 28:26)

Quando era criança, certa vez assisti um programa de televisão que trouxe um hipnotizador de auditório. Geralmente, essas pessoas não têm qualquer poder que não o de sugestionar um grupo de pessoas que já está predisposto a ser sugestionado.

Em dado momento, trouxe algumas mulheres do auditório e as deixou em estado de hipnose. Em seguida, ordenou a uma delas que falasse uma mistura da língua Zulu com o Espanhol. A mulher abria a boca, e emitia sons ininteligíveis. Estava na cara que ela não falava nem Zulu nem Espanhol.

O ato de proferir sons sem qualquer sentido, chamado de Glossolália, é algo quase tão antigo quanto a humanidade. E acontece em uma série de religiões, como o Espiritismo, o Islamismo, o Vudu, o Hinduísmo, etc.

O que dizer desse ato? Nada mais é do que transe e catarse. Claro, as pessoas gostam de tentar dar sentido a isso como quem jura de pés juntos que as nuvens do céu formam animais ou rostos. E, sempre quem conta o conto aumenta um ponto.

Essa prática, portanto, não tem rigorosamente nada de espiritual, mas também não é proibida. É apenas inútil. Claro, não deve ser vista como tendo algum tipo de poder profético ou coisa do gênero, o que descambaria para a feitiçaria.

Mas, de onde vem essa prática?

Ela deriva de um entendimento equivocado de uma parábola judaica que diz que quando a Lei foi dada a Israel, ela foi ouvida em setenta idiomas, mas só Israel a tomou sobre si. Mas, essa não é uma história literal, mas sim uma parábola do folclore judaico para falar sobre o fato de que somente Israel assumiu perante o Senhor a incumbência de ser uma nação teocrática.

Como o Cristianismo se originou no Judaísmo, o autor do livro de Atos na Bíblia Cristã tomou a parábola e criou a narrativa do Pentecostes, na qual um fenômeno parecido teria supostamente ocorrido com os primeiros cristãos.

A associação com Pentecostes também é problemática, haja vista que a Bíblia Hebraica não associa a recepção da Lei com a Festa das Semanas (chamada no grego de Pentecostes). Somente na época do Segundo Templo é que essa associação começou a ser feita.

Não é muito claro se o texto da Bíblia Cristã almeja ser literal ou figurativo, e como o autor não é nem pretende ser cristão, deixaremos essa questão de lado.

Mais adiante, quando o Cristianismo se alastrou pelo mundo, algumas comunidades viram na descrição da Bíblia Cristã como um fundamento para justificar a prática da Glossolalia, isto é, balbuciar sons sem sentido em estado de transe. Mesmo no Cristianismo, é muito discutível se essa leitura é aceitável.

Fato é que isso não existe na Bíblia Hebraica, e nunca existiu no Judaísmo, nem histórico, nem moderno. Assim sendo, não é uma prática bíblica.

Que o leitor possa refletir: Que proveito há em emitir sons sem sentido, senão o envaidecer a pessoa, que acaba se sentindo mais espiritual do que os demais? Observe como essa pergunta se encaixa bem com o que é dito em Provérbios 28:26, citado no começo deste artigo.

Lembre-se: Existe espaço para a emoção no culto ao Eterno. Porém, ela deve ser acompanhada da razão, e não ser algo totalmente sem sentido ou propósito.