A Essência da Lei do Senhor

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Introdução
Você já se sentiu perdido com relação ao que é dito sobre a Instrução (Torá) do ETERNO? Você não está sozinho!

Há tanta confusão no meio religioso que isso gera algumas posições bastante radicais, que serão aqui abordadas, para que não caiamos nesses erros.

Lei Abolida?
Há quem ache que a Instrução, mal traduzida como “Lei”, do Senhor tenha sido abolida. Não compreendem que a Instrução (Torá) foi dada como uma constituição para um país e que é impossível uma sociedade viver sem leis. A Instrução (Torá) fala da espiritualidade. Mas, ela não é uma receita de bolo para o indivíduo ser espiritual. Nunca foi e nunca será.

Prova disso é que a Instrução dada a Moisés falava sobre leis habitacionais (ex: Lv. 25:33), questões de higiene (ex. Dt. 23:13), militares (ex: Dt. 20:1), compra e venda de terra (ex. Lv. 23:4), código penal (ex. Ex. 22:3) e assim por diante.

Imaginar que as leis possam ser abolidas é achar que podemos viver numa sociedade totalmente anárquica. Isso não funciona nem em grupos pequenos, quem dirá num país inteiro.

Apenas Sete Leis?
E há outros que, pautados em interpretações descontextualizadas de decisões de homens, acreditam que só se deve cumprir sete, dentre todas as leis do Eterno. Até o meu cadastro no Netflix exige mais do que isso!

Não compreendem que essas leis eram apenas para que os estrangeiros fossem julgados em casos que exigiam pena de morte. Ou ainda, que os sábios talmúdicos (ou posteriores) quando falavam sobre isso emitiam apenas opiniões, pois não eram profetas. E que, muitas vezes, essa opiniões se contradizem, pois são apenas isso: opiniões de homens!

Observem a seguinte passagem: “Há seis coisas que o ETERNO odeia, sete coisas que ele detesta: olhos orgulhosos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que traça planos perversos, pés que se apressam para fazer o mal, a testemunha falsa que espalha mentiras e aquele que provoca discórdia entre irmãos.” (Provérbios 6:16-19)

Dessas seis coisas que o Senhor odeia, temos pelo menos três que não estão nas sete leis: Ser orgulhoso, ser mentiroso e provocar discórdia entre irmãos.

Ora, será que o Senhor só odeia isso quando praticado por israelitas? Não faz sentido! Como também não faz sentido que várias nações tenham sido punidas na Bíblia Hebraica por coisas como exercer vingança, ser desleal, entre outros. E, como essa passagem, existem muitas outras!

Tudo ao Pé da Letra?
Por fim, há ainda aqueles que acham que temos que observar tudo, literalmente, tal como foi nos tempos de Moisés, como se fosse possível viver no Brasil do século 21 igual a um povo nômade de quase 5 mil anos atrás no Oriente Médio. Eu mesmo já caí nesse erro, muitos anos atrás e isso quase destruiu meu relacionamento com o Criador.

Os que adotam essa posição geralmente estão muito bem intencionados. Mas, não compreendem que até nos tempos de Moisés a Instrução (Torá) sofreu ajustes. Inicialmente, eram os primogênitos israelitas que seriam sacerdotes (Nm. 3:13,41). Também não existia a páscoa no segundo mês (Nm. 9:11) ou o direito das mulheres à herança (Nm. 27:7) ou mesmo o empecilho a isso se elas se casassem com pessoas de outras tribos (Nm. 36:3). Nada disso era previsto na Instrução (Torá).

Lembremos também que a Instrução prevê coisas que o próprio Senhor não desejava. Por exemplo, a Instrução prevê um rei humano (Dt. 17:16). Mas, o Senhor não desejava isso e esperava que Israel superasse essa fase (1 Sm. 8:7). Semelhantemente, a Instrução prevê sacrifícios de sangue por ação de graças (Lv. 7:13), mas o Senhor esperava que um dia Israel compreendesse que ele não bebe sangue nem come carne de animais (Sl. 50:13).

Mesmo nos tempos bíblicos, a Instrução jamais previu um Templo. No entanto, esse foi aceito porque o espírito da coisa era fazer algo no mesmo estilo do Tabernáculo, mas honrando ainda mais o Senhor (1 Sm. 7:13).

A Verdade sobre a Instrução
Felizmente, alguns poucos ainda se perguntam: Será que há um meio termo nessa insanidade de ser radical? infelizmente, poucos procuram a resposta dentro das Escrituras. Preferem a resposta dos líderes religiosos, ao invés de darem ouvidos aos profetas chamados pelo próprio Senhor!

Primeiramente, é importante entender que cumprir os mandamentos do Senhor e algo indispensável para se ter com Ele um relacionamento. Afinal, as Escrituras dizem:

“O que desvia os seus ouvidos de ouvir a Instrução (Torá), até a sua oração será abominável.” (Provérbios 28:9)

Israel deveria ser um exemplo para as nações. Nos Cânticos do Servo, em Isaías, encontramos uma das melhores definições para o seu papel:

“Não faltará, nem será quebrantado, até que ponha na terra a justiça; e as ilhas aguardarão a sua Instrução (Torá).” (Isaías 42:4)

Ora, como poderiam as nações aguardarem a Instrução (Torá) se essa não lhes for relevante? Semelhantemente, encontramos em Zacarias:

“Assim diz o Eterno dos Exércitos: Naquele dia sucederá que pegarão dez homens, de todas as línguas das nações, pegarão, sim, na orla das vestes de um judeu, dizendo: Iremos convosco, porque temos ouvido que o Senhor está convosco.” (Zacarias 8:23)

Só na Era Messiânica?
Ninguém ousaria negar diretamente as palavras acima. O que dizem, então, os líderes religiosos? Que isso só será aplicado na Era Messiânica.

Porém, não faz sentido que o bem só seja ensinado na Era Messiânica. Como podemos esperar uma Era de esclarecimento perante o Criador, se vamos alienar todos os que O buscam?

Na verdade, a resposta é bem simples: Olhemos para a Segunda Páscoa! Olhemos para as filhas de Zelofeade! Olhemos para os sacrifícios! E olhemos para o próprio Templo!

Por que o Templo foi aceito, mesmo que ele “contradiga” as instruções do Tabernáculo? A resposta é óbvia: Porque a essência era a mesma. A estrutura ser móvel ou ser fixa não era o que faria a diferença!

Da mesma forma, os mandamentos da Instrução (Torá) de Moisés contêm duas coisas: A essência e a forma. A forma é como um copo. A essência é o líquido que você coloca dentro.

Por isso, o próprio Senhor fez ajustes naquilo que deu a Moisés, bem como não se importou com os ajustes feitos dentro da própria Instrução (Torá)! Existem inúmeras passagens bíblicas em que isso ocorre!

A Instrução (Torá), tal qual ela foi dada a Israel, possui uma essência e uma forma. A forma tem a ver com a cultura do Oriente Médio.

Encontrando a Essência
É a essência, não a forma, que deve ser praticada pelas nações! Essa é a Instrução (Torá) que Israel deve ensinar. E como aprendemos isso? Estudando a fundo as Escrituras!

Vejamos um exemplo. A Instrução diz: “As primícias dos primeiros frutos da tua terra trarás à casa do Senhor teu Deus; não cozerás o cabrito no leite de sua mãe.” (Êxodo 34:26)

Será que devemos, por causa do acima, fazer protesto contra o McDonald’s em todos os países até que eles tenham parado de vender cheeseburgers. Ou que o queijo seja feito com margarina processada sabor queijo ao invés de leite?

A própria Instrução diz: “Guardai-os pois, e cumpri-os, porque isso será a vossa sabedoria e o vosso entendimento perante os olhos dos povos, que ouvirão todos estes estatutos, e dirão: Este grande povo é nação sábia e entendida.” (Deuteronômio 4:6)

Ora, achar que o Criador do Universo é contra cheeseburgers não é ser sábio. É ser, aos olhos das nações, supersticioso e tacanho! Claro, porque o foco está errado! O foco não é a forma.

Se você estudar esse tema, verá que existem registros arqueológicos que indicam que os cananeus praticavam o cozimento de filhotes no leite como ritual de fertilidade para seus deuses. Os filhotes no leite (cheios de “vitalidade”) eram dados aos deuses e aos seus sacerdotes É por isso que a Instrução diz: Não façam isso! Ofereçam suas primícias ao Senhor!

O problema era a idolatria, não o cheeseburger! Portanto, como podemos aplicar a essência à realidade do Brasil, por exemplo?

É bem simples: Não façam superstições nem peçam a deuses, santos ou outros para que seu trabalho seja abençoado, nem gastem dinheiro com essas coisas! Ao contrário disso, orem ao Senhor e usem sem dinheiro para ajudar os necessitados e sustentar aquilo que os auxilia a estar próximos ao Criador, seja com estudos ou com adoração. Essa é a lição que o Senhor ensina a Israel!

Este é apenas um, dos vários exemplos. Mas, para fazer isso, é preciso que o leitor esteja disposto a estudar bastante, a não cair em dogmatismo e a não se contentar com respostas prontas ou versículos desconexos. Dá muito mais trabalho! É bem mais fácil ficar apenas na forma.

Há quem faça pior ainda: Use a forma e despreze o conteúdo! De que adianta não comer cheeseburger e encher a casa com retratos de “santos” ou de “grandes mestres” para que eles abençoem o lar? No entanto, encontra-se isso em profusão no meio judaico. Não deveria ser assim.

Somente buscando uma fé racional podemos agradar o Criador. Não me refiro a ser cético, mas sim a não precisar emburrecer ou tornar-se supersticioso para ter fé.

A essência é: “Crede no ETERNO vosso Senhor, e estareis seguros; crede nos seus profetas, e prosperareis.” (2 Crônicas 20:20)

Ou seja, a resposta está na Bíblia Hebraica (Tanakh), nos profetas e nas lições que podemos extrair a partir do relacionamento dos nossos predecessores para com o Criador.