Argumentando com versículos

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Recentemente presenciei um debate sobre a postura da mulher no casamento, um jovem rapaz tentava defender a ideia de que a mulher deve ser totalmente submissa ao marido, anulando sua vontade própria.

Para justificar seu ponto de vista, ele apenas repetiu o seguinte versículo bíblico, como um grande exemplo do que seria o amor de uma mulher por seu “marido senhor”:

“Aonde fores irei, onde ficares ficarei! O teu povo é o meu povo e o teu Deus é o meu Deus!” (Rute 1:16)

Muita gente aplaudiu e concluiu que ele estava certo. Mas, o problema é que esse versículo tem um contexto, que é totalmente outro. A fala é de Rute para Noemi, sua sogra.

O contexto: Durante uma época de fome, Noemi havia se mudado para Moabe com seu marido e dois filhos homens. Noemi era viúva e seus filhos haviam se casado com duas moças moabitas. Os dois filhos de Noemi morreram e as mulheres também ficaram viúvas.

No Oriente Médio antigo, onde a propriedade de terras geralmente ficava com o homem, isso significava viver numa situação de extrema penúria. Ouvindo que a fome tinha cessado, Noemi resolve voltar para sua terra, mas aconselha suas duas noras a voltarem para suas famílias. Rute, porém, resolve não abandonar a sogra e declara isso dizendo a frase citada no versículo.

Como se pode perceber, o contexto não tem nada a ver com relação entre homem e mulher, muito menos ainda com a mulher anular sua vontade para fazer tudo que o marido ordenar!

Muita gente, porém, aplaudiu a mensagem do rapaz, pois supostamente teria conseguido, com um único versículo bíblico. A razão para isso é simples: Se você consegue responder usando a Bíblia, as pessoas acham que você está com a razão.

Isso mostra o perigo que é se deixar levar até mesmo por um argumento supostamente bíblico, sem averiguar a situação. Nunca se deixe enganar com isso!

Antes de achar que o versículo encerra a discussão, é importante seguir os seguintes passos:

1) Analise o contexto. Leia o contexto do versículo e verifique se ele realmente quer dizer o que a pessoa tentou argumentar que diz.

2) Consulte outras traduções. Muitas vezes, o problema pode estar numa tradução. Ler outras traduções pode ajudar a revelar se foi o caso.

3) Pergunte-se se é geral ou específico. Isto é, houve generalização da parte do debatedor? Se houve, podemos mesmo generalizar?

4) Verifique se existem contra-exemplos. Muitas vezes, a ideia bíblica é mais complexa, condenando extremos de ambos os lados. Verifique se há outros versículos dizendo coisas diferentes, o que daria uma visão mais ampla da questão.

5) Observe a intenção. O debatedor está tentando explicar seu ponto de vista, ou simplesmente preocupado em calar seu “oponente” e ganhar a “batalha das palavras”?

Tomando esses cuidados, fica mais fácil não cair nessas armadilhas.