Amparando quem sofre – Parte I: O que NÃO fazer

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Muita gente me pergunta: Como podemos amparar uma pessoa que está sofrendo? Como teólogo e psicanalista, entendo que tão importante quanto saber o que fazer é saber o que NÃO fazer.

Sendo assim, a resposta a essa dúvida se dividirá em dois artigos. O primeiro se concentrará justamente no que não fazer.

 

1) Não tente adivinhar as razões

No livro de Jó, os amigos desse último tentam adivinhar as razões de seu sofrimento, e encontram mil e uma formas de tentar expor suas razões. Mas, nenhum deles é capaz de realmente entender os motivos. E, no fim, o Senhor diz, dirigindo-se a um deles:

“A minha ira se acendeu contra ti, e contra os teus dois amigos, porque não falastes de mim o que era reto, como o meu servo Jó.” (Jó 42:7b)

A verdade é que não sabemos as razões pelas quais temos que sofrer nesta vida. Mesmo entre as razões que conhecemos, existem inúmeras possibilidades. Fora aquelas que não conhecemos, muitas das quais não viremos a conhecer nesta vida.

 

2) Não use ‘termômetro da fé’

Um dos maiores sinais de imaturidade espiritual é achar que tudo se resume a ter fé versus não ter fé; ou a ter fé suficiente versus insuficiente. Observe o que o rei Davi diz:

“Muitas são as aflições do justo, mas o Eterno o livra de todas.” (S. 34:19)

Repare que o justo terá aflições. A fé do justo está na certeza de que o Senhor cuidará dele sempre. Não quer dizer que ele não passará por dor, sofrimento ou adversidade.

 

3) Não tente fazer a pessoa ficar feliz

Muita gente acha, equivocadamente, que se combate a tristeza sorrindo, ou forçando a pessoa a esquecer a tristeza. Não é assim. Quem está triste deve ter tempo para processar a tristeza. Lembre-se do que a Bíblia diz:

“Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar.” (Ec. 3:4)

A tristeza só é um problema quando ela impede a pessoa de funcionar em sociedade, por um período prolongado. Nesse caso, é necessário ajuda profissional.

 

4) Não pense que ‘ler a Bíblia e orar vai resolver tudo’

Muita gente acha que a resposta para todas as coisas está na Bíblia. Porém, nem a própria Bíblia respalda esse tipo de pensamento:

“Dai a bebida forte àquele que desfalece e o vinho àquele que tem amargura no coração. Que ele beba e esquecerá sua miséria e já não se lembrará de suas mágoas.” (Pv. 31:6-7)

Observe que o conselho acima não manda dar uma Bíblia ou orar, mas sim bebida forte. Nos tempos antigos muitas vezes era o único remédio existente contra a angústia. Isso mostra que há problemas que não se resolvem espiritualmente. A oração é eficaz, e ler a Bíblia resolve muita coisa. Mas, não devemos achar que fazendo isso vamos curar calvície, ou tratar infecção bacteriana.

Semelhantemente, uma pessoa com questões emocionais pode precisar de ajuda profissional.

 

5) Não julgue

A Bíblia diz: “É o Senhor quem julga.” (Sl. 75:7a).

Mas, é muito fácil esquecer disso e nos colocarmos na posição de juiz do próximo. Esse não é o papel que nos compete. Nunca se esqueça que nosso objetivo é ser luz para o próximo, levando amor e restauração, não juízo.

Se observarmos essas cinco coisas, já é meio caminho andado para oferecermos um apoio de qualidade àqueles que sofrem.

Por fim, lembre-se: Apoiar não significa anular o sofrimento. Significa estar presente, de forma que a pessoa que sofre se sinta amada e amparada no momento difícil.